Reforma Tributária muda a forma de definir preços e competir no varejo
A Reforma Tributária do Consumo deve alterar de forma relevante a maneira como empresas do varejo calculam preços, negociam com fornecedores e avaliam sua competitividade.
Com a implantação da CBS e do IBS, a análise comercial deixará de considerar apenas o preço bruto destacado na nota fiscal e passará a exigir avaliação do custo líquido da mercadoria, da geração de créditos tributários e do regime tributário de cada fornecedor.
Na prática, a precificação passa a ser uma decisão integrada entre as áreas comercial, fiscal, contábil, financeira, tecnológica e estratégica.
A principal mudança para o varejo está na forma de enxergar o custo real de aquisição.
No modelo atual, tributos como ICMS, ISS, PIS e COFINS muitas vezes estão embutidos no preço da operação. Com a Reforma Tributária, IBS e CBS passam a ser destacados, permitindo maior visibilidade sobre o componente tributário e sobre os créditos recuperáveis.
Isso significa que dois fornecedores podem oferecer o mesmo produto pelo mesmo preço nominal, mas gerar custos efetivos diferentes para o comprador. A diferença estará na possibilidade de aproveitamento dos créditos de IBS e CBS.
Durante a transição, esse ponto será ainda mais sensível, porque o sistema atual continuará convivendo com o novo modelo. Fornecedores enquadrados em regimes diferentes poderão gerar créditos diferentes, e isso impactará diretamente o custo líquido da mercadoria.
Empresas do Simples Nacional, por exemplo, poderão continuar recolhendo tributos pelo regime unificado. Nesse caso, o adquirente poderá aproveitar apenas os valores efetivamente recolhidos dentro do DAS. Já fornecedores que optarem pelo recolhimento de IBS e CBS pelo regime regular poderão, em tese, permitir maior aproveitamento de créditos pelos clientes.
Esse aspecto pode alterar negociações comerciais. O varejista precisará avaliar não apenas o preço apresentado pelo fornecedor, mas também o crédito gerado, o regime tributário adotado, a regularidade fiscal, a qualidade da informação fiscal e a capacidade de integração dos sistemas.
A política de preços também deverá ser revista de forma contínua. A Reforma Tributária terá fases diferentes até a substituição completa do sistema atual, com mudanças graduais na CBS, no IBS, no ICMS, no ISS e nos créditos tributários.
Por isso, repetir modelos de mark-up criados para o sistema atual pode gerar distorções. A empresa que apenas aplicar percentuais antigos sobre a nova estrutura de custos corre o risco de perder margem, aumentar preços além do necessário ou reduzir competitividade.
Outro ponto crítico é a correta classificação fiscal dos produtos. Erros em NCM, códigos fiscais, regras de tributação, cadastros de produtos ou enquadramento de operações podem impedir o aproveitamento de créditos e transformar tributos recuperáveis em custo definitivo.
Para o varejo, a preparação deve envolver três frentes principais: mapear fornecedores por regime tributário, revisar contratos e políticas de compra, e adaptar ERPs para controlar, item por item, o custo líquido e os créditos de IBS e CBS.
Também será necessário avaliar o comportamento do consumidor. Nem todo aumento de custo poderá ser repassado ao preço final. Categorias de produtos com maior concorrência, sensibilidade a preço ou forte presença do comércio eletrônico podem exigir estratégias diferentes de margem, mix e negociação com fornecedores.
A Reforma Tributária, portanto, não deve ser tratada apenas como uma mudança fiscal. Ela impactará formação de preços, compras, margem, estoque, crédito tributário, fluxo de caixa, tecnologia, governança e estratégia comercial.
A Reforma Tributária exigirá que o varejo passe a precificar com base no custo líquido das operações e na capacidade real de aproveitamento de créditos de IBS e CBS.
A competitividade não dependerá apenas da alíquota nominal, mas da qualidade dos dados fiscais, da escolha dos fornecedores, da correta classificação dos produtos e da integração entre áreas internas.
A recomendação é que empresas varejistas iniciem desde já a revisão de suas políticas de preço, compras e cadastro fiscal, com simulações por produto, fornecedor e canal de venda.
Fonte: FENACON