Ranking Valor 1000: Reforma Tributária e Ajuste Fiscal Lideram Preocupações Corporativas
Líderes das maiores empresas do país, premiadas no ranking Valor 1000 (evento realizado em 8 de setembro em São Paulo, com metodologia da Serasa Experian, Valor e Época Negócios), apontaram a reforma tributária do consumo — que entra em nova fase em 2027 rumo à implementação plena até 2033 — e o ajuste fiscal como as duas principais frentes de preocupação para o ambiente de negócios brasileiro.
Do ponto de vista macroeconômico, executivos de diferentes setores associaram diretamente a ausência de ajuste fiscal à manutenção de juros e inflação elevados, com efeito cascata sobre investimento e crédito privado — visão compartilhada por líderes de setores tão distintos quanto financeiro (Itaú), siderurgia (Gerdau), mecânica (WEG), eletroeletrônicos (Intelbras), agronegócio (Copacol) e construção civil (Cury).
Mais relevante para a prática consultiva da FiscAll são os relatos específicos sobre os desafios operacionais da transição para CBS e IBS, que trazem pontos concretos de atenção para clientes com operações multiestaduais ou cadeias de fornecimento complexas:
- Preservação de créditos do regime anterior: o CEO da Sotreq destacou que o maior teste da reforma não está na adaptação a novas alíquotas, mas em garantir mecanismos de recuperação do estoque de créditos do regime anterior — especialmente ICMS —, para que as empresas preservem capital de giro saudável durante a transição.
- Regimes específicos e incentivos regionais: o CEO da Inpasa apontou que o maior entrave da reforma pode estar na regulamentação de regimes específicos, como incentivos regionais, para empresas com operações em diferentes Estados.
- Contratos de longo prazo: o CEO da Acciona Brasil chamou atenção para o impacto da reforma em contratos de concessão que atravessarão diferentes regimes tributários ao longo de sua vigência, exigindo modelagem financeira ajustada e tratamento de reequilíbrio contratual junto aos poderes concedentes — ponto especialmente relevante para clientes com contratos administrativos ou concessões de longo prazo.
- Complexidade das mudanças de regras e prazos: o diretor executivo da Valgroup destacou que alterações constantes nas regras e nos prazos de implementação aumentam a complexidade da adaptação, mesmo reconhecendo potenciais ganhos estruturais, como redução da sonegação e maior isonomia concorrencial.
- Tratamento tributário diferenciado setorial: a RD Saúde avaliou positivamente o regime diferenciado para medicamentos, citando potencial de ampliar acesso a tratamentos, especialmente para pacientes crônicos.
Esses relatos, embora vindos de grandes companhias, sinalizam um padrão relevante para clientes de médio porte com estruturas societárias e patrimoniais mais simples: a transição tributária exige planejamento antecipado de fluxo de caixa (créditos acumulados), revisão contratual (para contratos plurianuais) e atenção redobrada a regimes específicos e incentivos regionais que podem ser descontinuados ou modificados ao longo do cronograma até 2033.
O sentimento predominante entre as lideranças empresariais é de urgência dupla: a reforma tributária, embora vista como avanço estrutural necessário, impõe custos de adaptação relevantes no curto e médio prazo, enquanto a ausência de ajuste fiscal mantém a percepção de risco do país elevada. Empresas em transição devem priorizar a gestão de créditos tributários acumulados e a revisão de contratos de longo prazo como frentes concretas de ação diante desse cenário.
FONTE: VALOR ECONÔMICO